sexta-feira, 30 de março de 2018

“Via Mátris”: a versão da “Via Crúcis” baseada nas 7 Dores de Nossa Senhora




Uma belíssima tradição de contemplação e meditação para acompanharmos Maria nos momentos mais dolorosos da sua vida

Segundo uma antiga e popular tradição, a Santíssima Virgem Maria visitava todos os dias os lugares da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus depois da Sua Ascensão ao Paraíso. Muitas outras tradições populares também recordam a presença fiel de Maria no seguimento de Jesus enquanto Ele carregava a Cruz até o Calvário.
Nossa Senhora foi a primeira que acompanhou Jesus no trajeto da Paixão, oferecendo o exemplo de com-Paixão que muitos cristãos procuraram imitar ao longo dos séculos.
Os franciscanos popularizaram a prática de repassar o caminho de Jesus na Sexta-Feira Santa mediante as suas Estações da Cruz, que formam a Via Crúcis (“caminho da Cruz”, em latim) ou Via Sacra (“caminho sagrado”).
Mas também foi se desenvolvendo outra forma de repassar esse trajeto: mediante o filial acompanhamento de Maria no seu sofrimento oferecido com fé, esperança e amor. Trata-se da Via Mátris Dolorósae(pronuncia-se “Doloróze”; quer dizer “Caminho da Mãe Dolorosa”), ou simplesmente Via Mátris (“Caminho da Mãe”), que foca nas Sete Dores de Maria – vividas não somente diante da crucificação de Jesus, mas ao longo de toda a sua vida.
As religiosas da congregação de Nossa Senhora das Dores comentam:
“O piedoso exercício da Via Mátris, inspirado na Via Crúcis, se desenvolveu e foi posteriormente aprovado pela Sé Apostólica. É um exercício piedoso que já existia de forma embrionária desde o século XVI, embora a sua forma presente venha do século XIX”.
São estas as Sete Dores de Maria, que compõem a meditação e contemplação da Via Mátris Dolorósae:

1ª Dor – A profecia de Simeão

prophecy of Simeon
Giovanni Bellini (circa 1430–1516)
Simeão os abençoou e disse a Maria, sua mãe: Eis que este menino está destinado a ser ocasião de queda e elevação de muitos em Israel e sinal de contradição. Quanto a ti, uma espada te transpassará a alma (Lc 2,34-35).

2ª Dor – A fuga para o Egito

Public Domain
O anjo do Senhor apareceu em sonho a José e disse: Levanta, toma o menino e a mãe, foge para o Egito e fica lá até que te avise. Pois Herodes vai procurar o menino para matá-lo. Levantando-se, José tomou o menino e a mãe, e partiu para o Egito (Mt 2,13-14).

3ª Dor – Maria procura o Menino Jesus perdido no templo em Jerusalém

Jesus Temple
William Holman Hunt (1827–1910
Acabados os dias da festa da Páscoa, quando voltaram, o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que os pais o percebessem. Pensando que estivesse na caravana, andaram o caminho de um dia e o procuraram entre parentes e conhecidos. E, não o achando, voltaram a Jerusalém à procura dele (Lc 2,43b-45).

4ª Dor – Jesus encontra a Sua Mãe no caminho do Calvário

WOMEN
Raphael-PD
Ao conduzir Jesus, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e o encarregaram de levar a cruz atrás de Jesus. Seguia-o grande multidão de povo e de mulheres que batiam no peito e o lamentavam (Lc 23,26-27).

5ª Dor – Maria ao pé da Cruz de Jesus

Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Vendo a Mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse Jesus para a mãe: Mulher, eis aí o teu filho! Depois disse para o discípulo: Eis aí a tua Mãe! (Jo 19,15-27a).

6ª Dor – Maria recebe Jesus descido da Cruz

PIETA
Annibale Carracci (1560–1609) | WIKIMEDIA
Chegada a tarde, porque era o dia da Preparação, isto é, a véspera de sábado, veio José de Arimateia, entrou decidido na casa de Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Pilatos, então, deu o cadáver a José, que retirou o corpo da cruz (Mc 15,42)

7ª Dor – Maria deposita Jesus no Sepulcro

PIETA
Charles Le Brun (1619–1690) | WIKIMEDIA
Os discípulos tiraram o corpo de Jesus e envolveram em faixas de linho com aromas, conforme é o costume de sepultar dos judeus. Havia perto do local, onde fora crucificado, um jardim, e no jardim um sepulcro novo onde ninguém ainda fora depositado. Foi ali que puseram Jesus (Jo 19,40-42a).
Fonte: Aleteia

Missa da Ceia do senhor e Rito do Lava Pés.























quinta-feira, 29 de março de 2018

Papa Francisco explicou hoje por que a Páscoa é mais importante que o Natal

Na catequese desta quarta, ele focou no Tríduo Pascal. O cristão é transformado em alguém novo. "Cristo é o único que nos justifica e nos faz renascer".

O anúncio de que Cristo ressuscitou é o centro de nossa fé!

O Papa Francisco dedicou a catequese da Audiência Geral desta quarta-feira ao Tríduo Pascal, “para aprofundar um pouco” o que representam para nós, crentes, os dias “mais importantes do ano litúrgico”, que constituem “a memória celebrativa de um único grande mistério: a morte e a ressurreição do Senhor Jesus”.
O Papa começou perguntando aos 12 mil fiéis presentes na Praça São Pedro qual é a festa mais importante da nossa fé: a Páscoa ou o Natal?
E recordou, que até aos 15 anos, ele acreditava que fosse o Natal, “mas todos erramos”. É a Páscoa “porque é a festa da nossa salvação, a festa do amor de Deus por nós, a festa, a celebração da sua morte e ressurreição”.

Tríduo Pascal

“O Tríduo – explicou o Pontífice – começa amanhã com a Missa da Ceia do Senhor e se concluirá com as vésperas do Domingo da Ressurreição. Depois vem a Oitava da Páscoa, para celebrar esta grande festa”. Esses dias constituem a memória celebrativa de um grande único mistério: a morte e a ressurreição do Senhor Jesus.
Estes dias marcam as etapas fundamentais de nossa fé e da nossa vocação no mundo, e todos os cristãos são chamados a viver os três dias Santos como, por assim dizer, a “matriz” de sua vida pessoal e comunitária, como viveram os nossos irmãos judeus o êxodo do Egito.
Estes três dias, de fato –frisou o Papa – “repropõe ao povo cristão os grandes eventos da salvação operados por Cristo, e assim o projetam no horizonte de seu destino futuro e o fortalecem no seu compromisso de testemunha na história”.
O Canto da Sequência anuncia solenemente que “Cristo, nossa esperança, ressuscitou e nos precede na Galileia”. Aqui, Tríduo Pascal encontra seu ápice, disse Francisco, que explica:
“Ele contém não somente um anúncio de alegria e de esperança, mas também um apelo à responsabilidade e à missão. E não acaba com a “colomba” (ndr: espécie de pão doce italiano, típico da Páscoa), os ovos, as festas. Isto é bonito, é bonito porque é a festa de família, mas não fica nisto. Começa ali com o caminho à missão, ao anúncio: Cristo ressuscitou”.
E este anúncio, ao qual o Tríduo conduz preparando-nos para acolhê-lo, é o centro de nossa fé e da nossa esperança, é o cerne, é o anúncio, é o kerigma que continuamente evangeliza a Igreja e que esta, por sua vez, é convidada a evangelizar”.

Batismo

“O Cordeiro que foi imolado”. Assim São Paulo fala de Cristo, e com Ele “as coisas velhas passaram, eis que tudo se fez novo”. No Tríduo Pascal “a memória deste acontecimento fundamental se faz celebração plena de reconhecimento e, ao mesmo tempo, renova nos batizados o sentido de sua nova condição”:
“E por isto, no dia de Páscoa, desde o início se batizava as pessoas. Também na noite deste sábado eu batizarei aqui, em São Pedro, oito pessoas adultas que começam a vida cristã. E começa tudo: nasceram de novo”.

Cristo, o único que nos justifica

São Paulo também nos recorda que Cristo “foi entregue à morte por causa de nossas culpas e ressuscitou para nossa justificação”:
“O único, o único que nos justifica; o único que nos faz renascer de novo é Jesus Cristo. Nenhum outro. E por isto não se deve pagar nada, porque a justificação – o fazer-se justos – é gratuita. E esta é a grandeza do amor de Jesus: dá a vida gratuitamente para nos fazer santos, para nos renovar, para nos perdoar. E isto é o cerne deste Tríduo Pascal”.
No Tríduo Pascal é renovado nos batizados o sentido de sua nova condição, como diz São Paulo: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto”:
“Olhem para o alto. Olhar, olhar o horizonte, ampliar os horizontes: esta é a nossa fé, esta é a nossa justificação, este é o estado de graça”.
“Um cristão, se verdadeiramente deixa-se lavar por Cristo, se verdadeiramente deixa-se despojar por Ele do homem velho para caminhar em uma vida nova, mesmo permanecendo pecador – porque todos o somos – não pode ser corrupto: a justificação de Jesus nos salva da corrupção – somos pecadores, mas não corruptos -, não pode viver com a morte na alma e muito menos ser causa de morte”.

Falsos cristãos

O Papa então, diz que “deve dizer uma coisa triste e dolorosa”:
“Existem cristãos fingidos, aqueles que dizem “Jesus ressuscitou”, “eu fui justificado por Jesus”, estou na vida nova, mas vivo uma vida corrupta. E estes falsos cristãos acabarão mal. O cristão – repito, é pecador – todos o somos, eu sou. O corrupto finge ser uma pessoa honrada, mas no final, no seu coração existe a podridão. Jesus nos dá uma vida nova. O cristão não pode viver com a morte na alma e nem ser causa de morte.”
“Pensemos – para não ir muito longe – pensemos em casa, pensemos nos assim chamados “cristãos mafiosos”. Mas eles, de cristão, não têm nada. Dizem-se cristãos, mas levam a morte na alma, e aos outros. Rezemos por eles, para que o Senhor toque as suas almas”.

Lavar os olhos das crianças

O Papa recorda que em muitos países, no dia de Páscoa, quando tocam os sinos, as mães, as avós, lavam os olhos das crianças com água, com a água da vida, em um sinal para que possam ver as coisas de Jesus, as coisas novas.
“Deixemo-nos nesta Páscoa – foi o convite de Francisco – nos lavar a alma, nos lavar os olhos da alma, para ver as coisas belas, e fazer coisas belas. E isto é maravilhoso! Esta é justamente a Ressurreição de Jesus após a sua morte, que foi o preço para salvar todos nós”.

Presença da Virgem Maria

O Papa convida a nos dispormos a viver bem este Tríduo Santo já iminente “para estar sempre mais profundamente inseridos no mistério de Cristo, morto e ressuscitado por nós” e pede que a Virgem Maria nos acompanhe neste itinerário espiritual:
Ela, “que seguiu Jesus na sua paixão, ela estava lá, olhava, sofria, esteve presente e unida a Ele aos pés da cruz, mas não se envergonhava do filho. Uma mãe nunca se envergonha do filho. Estava lá, e recebeu em seu coração de mãe a imensa alegria da ressurreição. Que ela nos obtenha a graça de estarmos interiormente envolvidos pelas celebrações dos próximos dias, para que o nosso coração e a nossa vida sejam realmente transformados por elas”.
O Santo Padre conclui, desejando a todos “os mais cordiais votos de uma feliz e santa Páscoa, juntamente com as comunidades de vocês e os seus queridos”.
E dou um conselho a vocês, disse o Santo Padre concluir: ”Na manhã de Páscoa, levem as crianças até a torneira e lavem os olhos delas. Será um sinal de como ver Jesus Ressuscitado”.
Fonte: Aleteia

Quarta Feira Santa - Missa da Misericórdia.









Reflexão para a Quinta-Feira Santa - João 13,1-15


Na Quinta-feira Santa, somos convidados pela liturgia, a refletir, meditar e compreender o rico texto joanino da cena do lava-pés: João 13,1-15. Não resta dúvidas de que essa é uma das passagens mais significativas de todo oQuarto Evangelho e que, certamente, tem marcado o cristianismo desde as suas origens. Por isso, é um texto comprometedor: não dá pra fazer de conta que Jesus não considerou o serviço, motivado pelo amor, como o maior sinal distintivo de pertença a si.

Apresentamos uma pequena contextualização para, em seguida, nos voltarmos diretamente para o texto. A princípio, pode nos causar espanto a distância entre João e os demais evangelhos quando se trata da última ceia de Jesus com seus discípulos. Ora, ao contrário dos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), que dedicam poucos versículos à ceia, João dedica nada menos que cinco capítulos: 13, 14, 15, 16 e 17. Ao longo desses capítulos, ele apresenta uma longa e profunda catequese de Jesus, ministrada com gestos e palavras, numa espécie de testamento, cujo tema central é amor e serviço, apresentados como únicos sinais distintivos da comunidade cristã.

No Evangelho de João, não há nenhum aceno à “consagração” do pão e do cálice, como nos demais; por sinal, o pão só é mencionado na descrição da traição de Judas (cf. 13.17.26.27.30). Essa ausência do tema do pão e sua “consagração” pode ser explicada pelo fato de que João já havia apresentado em outra ocasião: após o sinal da “multiplicação dos pães” (cf. 6,1-15), o evangelista apresentou um longo discurso de Jesus se auto apresentando como o “pão da vida” (cf. 6,26-66). Por isso, já não havia mais necessidade de fazer catequese sobre o pão, uma vez que essa já tinha sido feita. O texto que a liturgia propõe é a primeira parte do longo relato da ceia. Chama a atenção, logo de início, o fato de um momento tão marcante e solene não começar com um discurso ou convite, mas com um gesto surpreendente: o lava-pés.

O texto começa com um indicativo teológico-temporal importante: “Antes da festa da páscoa” (v. 1a). O evangelista não pretende negar o contexto pascal no qual Jesus ceou com seus discípulos, mas quer apenas diferenciar, ou seja, quer dizer que a páscoa celebrada por Jesus não é mais a mesma do templo; a páscoa de Jesus não exige ofertas e sacrifícios, não é instrumento de exploração como se praticava no templo. Celebrando antes, Jesus substitui: aquela que será celebrada um ou dois dias depois pelos praticantes da religião oficial já não vale mais nada, está caduca e vencida. Na páscoa do templo, o centro das atenções é a morte, a imolação dos cordeiros, enquanto a páscoa de Jesus com sua comunidade celebra o triunfo da vida em forma de serviço, a mais eficaz manifestação visível do amor.

Ao longo de todo o Evangelho, João criou um clima de suspense em relação à “hora de Jesus” (cf. 2,4; 12,23). Pois bem, essa hora chegou: “sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora” (v. 1b). É a hora de glorificar ao Pai... o Pai que não se sentia glorificado pelo falso culto praticado no templo de Jerusalém, uma vez que esse fora transformado em casa de comércio (cf. 2,16ss), recebe de Jesus o verdadeiro culto: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (v. 1c). O amor de Jesus é ilimitado e, por isso, é “até o fim” (em grego: eivj te,loj – eis télos); isso significa a intensidade do amor, e não o seu término. Quer dizer que Jesus amou de modo extremo, intenso, e continua amando, uma vez que, ressuscitado, vive entre os seus na comunidade.

Continuando, diz o evangelista: “Estavam tomando a ceia” (v. 2a), ou seja, no momento primordial da vivência do amor-comunhão, uma ceia alternativa ao ritual judaico. Nessa ceia de Jesus e da comunidade não há encenação, tudo é feito na maior sinceridade e transparência; por isso, o evangelista menciona o episódio lamentável da traição de Judas (v. 2b): nada é imposto. A comunidade é livre para acolher ou não o amor incondicional e extremo de Jesus e, portanto, no seio dessa comunidade é possível que alguns o rejeitem, como Judas e outrora, e tantos nas gerações sucessivas. No entanto, a oferta de amor não diminui diante do risco de rejeição. Mesmo traindo, Judas continuou entre os “amados até o fim”.

A oferta do amor gratuito e intenso de Jesus pelos seus começou a se materializar quando ele “levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura” (v. 4). Certamente, foi grande o espanto e a curiosidade gerada nos discípulos com essa iniciativa de Jesus. Tirar o próprio manto em público é renunciar ao prestígio e à própria dignidade pessoal; amarrar uma toalha na cintura significa improvisar um avental e colocar-se em atitude de serviço; é assumir a condição de servo. Com isso, o evangelista deixa cada vez mais clara a oposição de Jesus à liturgia oficial do templo: a indumentária dos sacerdotes do templo é um impedimento ao serviço; na comunidade de Jesus não se usa paramentos, mas avental, não se cumpre ritos, mas se serve aos irmãos.

Na sequência, o texto diz o que Jesus fez após deixar de lado o manto e pôr-se em atitude de serviço: “Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido”(v. 5). Assim como os leitores ainda hoje ficam perplexos com essa cena, muito mais ficaram os discípulos que estavam com Jesus. Aqui devemos considerar o ambiente e a situação histórica na época: lavar os pés antes das refeições era uma regra básica de higiene, sobretudo, porque as estradas eram bastante precárias, as sandálias muito simples, o que deixava os pés sempre sujos, empoeirados.

Além do estado permanente de sujeira dos pés, devido à simplicidade das sandálias e condições das estradas, as refeições não eram feitas em mesas altas como as de hoje, nem os comensais se sentavam em cadeiras, principalmente nos ambientes mais simples. A mesa, geralmente, era apenas um tapete estendido no chão e, ao seu redor, sentava-se em almofadas ou diretamente no chão. Por isso, lavar os pés antes das refeições era uma exigência básica. Portanto, com essa atitude Jesus não instituiu nenhum rito, mas ensinou aos discípulos de outrora e de sempre que eles devem estar dispostos a servir ao próximo em suas necessidades mais simples e básicas.

O lava-pés era também um gesto de hospitalidade e acolhida: ao receber uma visita, o dono da casa oferecia, imediatamente, a água para lavar os pés. A grande novidade do gesto de Jesus está na sua autoria: esse papel era próprio do escravo; às vezes, a mulher lavava os pés do marido. O homem livre fazia isso apenas se recebesse em sua casa a visita de alguém muito ilustre, em atitude de respeito e reverência. Ao fazer voluntariamente, Jesus inverte completamente os valores: sendo ele Mestre e Senhor (vv. 13-14), fez o que era típico do escravo. Com esse gesto, Jesus diz que fica abolida a hierarquia na comunidade cristã, e a liturgia, enquanto rito, é substituída pelo serviço.

É claro que houve reação dos discípulos à atitude de Jesus. O primeiro a protestar foi Simão Pedro: “Tu nunca me lavarás os pés” (v. 8). Ora, para quem tinha deixado tudo, imaginando seguir um “Rei de Israel”, deve mesmo ser chocante deparar-se com um “servo”. Por isso, o espanto e a negação; o que Jesus estava fazendo era inaceitável para quem tinha ambiciosas pretensões de poder. A reação de Pedro revela também a resistência dos oprimidos nos processos de libertação: as relações de igualdade parecem algo impossível para quem conheceu apenas um mundo dividido entre grandes e pequenos, súditos e chefes, e acabou naturalizando essas condições; Jesus com suas palavras e gestos quis exatamente mudar essa realidade e visão de mundo.

O outro motivo para a resistência de Pedro foi o medo das consequências do gesto de Jesus: se o mestre lava os pés dos outros, os seus discípulos deverão fazer o mesmo. Por isso, Pedro só aceitou a atitude de Jesus em última instância: se não aceitasse não poderia mais fazer parte da comunidade:“Jesus respondeu: Se eu não te lavar não terás parte comigo” (v. 8b). Aceitar um mestre servo e se fazer servo com ele e como ele é condição para fazer parte da comunidade cristã.

Após a insistência de Jesus, Pedro aceitou, mas não compreendeu: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (v. 9). Com essa resposta, Pedro quis desviar o foco da proposta: quis transformar a atitude serviçal de Jesus em um novo rito de purificação, um a mais entre os muitos que os judeus já praticavam e que Jesus tanto combatia. Pedro não aceita a igualdade e não admite ter que servir ao próximo com a mesma intensidade com que Jesus servia. Ora, transformando a atitude do lava-pés em um novo rito de purificação, ele estaria se isentando do compromisso com o próximo e ganhando mais um mecanismo de dominação ideológica, contrariando o ensinamento de Jesus.

No final, certamente depois de muita insistência e resistência, o gesto de Jesus conclui por si mesmo a catequese do amor-serviço: “Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus sentou-se de novo” (v. 12). Sentar-se à mesa era um direito exclusivo da pessoa livre; sentar-se de novo após o serviço é a consolidação da revolução de valores instaurada: no banquete da vida, vivido e celebrado pela comunidade cristã, há espaço para todos, principalmente para o que serve. Não pode haver divisão de classes na comunidade, porque todos são iguais: o que senta à mesa, serve, e o que serve, senta à mesa. O que era papel do escravo, lavar os pés, é agora papel do homem livre que pode levantar-se e sentar-se conforme a necessidade. As divisões hierárquicas não tem espaço na comunidade cristã, porque nessa prevalece o movimento de sentar-levantar-sentar para que as necessidades do ser humano sejam atendidas, desde as mais simples, como tirar a poeira dos pés, até as mais complexas, como dar a própria vida por amor.

Jesus em sua liberdade fez o papel do escravo para mostrar que na sua comunidade não pode haver distinção de classe: não há mais espaço para a escravidão, todos e todas são livres. O medo de Pedro consistia em não aceitar essa mudança de paradigma, como hoje muitos ainda resistem, preferindo fechar-se a uma mentalidade mais alinhada à religião do templo, duramente combatido por Jesus, do que aos valores do Evangelho. Jesus celebrou a páscoa da subversão: substituiu o rito pelo serviço, criou uma comunidade alternativa igualitária, na qual tudo deve ser orientado a partir do amor-serviço.



Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues, Diocese de Mossoró-RN

“Feriadão” da Semana Santa?

O verdadeiro significado desta semana tão especial

Que bom seria se os cristãos católicos entendessem que a Semana Santa, em especial a Sexta-feira da Paixão, o santo Sábado de Aleluia e o Domingo da Ressurreição não são apenas mais uma oportunidade para o lazer, nem para reuniões festivas com muita comilança e bebedeira!
Em especial a Sexta-feira Santa não é, de modo algum, um dia para laudos banquetes à base de bacalhoada e bebidas alcoólicas. Não estamos vivendo agora, simplesmente, mais um “feriadão”: para os verdadeiros cristãos, não é assim, nem nunca foi.
Se a mídia secular e materialista entende assim esses dias, paciência. Trata-se, evidentemente, de uma outra visão, um outro olhar, desprovido de qualquer preocupação com a transcendência. Já para nós, católicos, é nosso “outono santo”, o tempo mais sublime e mais sagrado, que nos foi dado para celebrar a Páscoa definitiva que Deus preparou e consumou, em nosso amado Cristo, Jesus, para toda a humanidade.
Trata-se de preparação para a Páscoa e Festa da Páscoa! Esperamos para celebrar Jesus que vence a morte e nos dá a prova definitiva de que Deus não desiste de nós. Com a vitória sobre a morte, fruto do pecado, temos garantida a mesma Vitória, se ouvirmos a santa Palavra e nos mantivermos no Caminho e na Comunhão.
A Semana Santa é, assim, um período maravilhoso, de graça indescritível e bençãos de valor espiritual inestimável. Sete dias de profundíssimo recolhimento, oração, meditação, contemplação. Jejum e penitência, depois tremenda, indizível, santa alegria!
Mergulhamos fundo no Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Não transformemos, oh!, por piedade, não transformemos essas Celebrações tão sagradas e tão cheias de inefáveis significados em simples teatralização de episódios bíblicos, que no mais das vezes, apesar da boa vontade dos grupos de jovens, acabam por se converter em toscas comédias! Se o fizermos, estaremos nos expondo ao risco de olhar a Maravilha infinita de nossa fé como mero acontecimento histórico, distante e sem nenhuma ligação com o aqui-agora de nossas vidas. É aqui, é hoje que acontece a nossa salvação!
Celebremos, então, a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo com fervor, com piedade, com o sincero desejo de renovação da fé, com pura ânsia de transformar o meio em que estamos inseridos. Deixemos que dentro de nós, em nossos lares, em nossas comunidades, em nossa Igreja, este tão falado Jesus ressuscite e seja Presença viva e transformadora dos corações, das estruturas, mentais, físicas, espirituais.
Não somos seguidores do Livro pelo Livro, como não somos adoradores de um Deus morto. O Filho de Deus, que das Alturas veio ser Deus Conosco, continua conosco, dentro de nós e no meio de nós, ressuscitado, na história de nossa vida e na História da humanidade.
Por tudo isso, insistimos, a Semana Santa não é mais um “feriadão”. É infinitamente mais. É, sim o grande retiro espiritual do povo de Deus. Entramos com Jesus em Jerusalém, com nossos ramos, no domingo que passou; sentemo-nos com Ele na Ceia da Quinta-feira Santa para receber o preciosíssimo Dom da Eucaristia; contemplemos, na Sexta-feira de sua Paixão, Jesus manso e humilde de coração erguido entre o Céu e a Terra, consumando sua maior prova de Amor por nós; Vigiemos na noite do Sábado Santo, com a celebração da Luz e a recordação da História da Salvação. E na manhã luminosa do Domingo, o Dia do Senhor, com as mulheres e os Apóstolos, constatamos que o sepulcro santo está vazio e que o Senhor verdadeiramente ressuscitou, está vivo entre nós! É quando voltaremos a entoar o Aleluia!
É Páscoa! O Senhor ressuscitou! O Amor de Deus para conosco é mais forte que a morte e que a multidão dos nossos pecados! Nossa esperança n’Ele não é vazia! Levemos ao mundo, com a Palavra e em nossas vidas, o alegre testemunho da Ressurreição de Jesus, que garante a nossa própria ressurreição! Misturemo-nos à sociedade e, como fermento, transformemo-la com a nossa Fé, com a nossa Esperança e com o nosso Amor a Deus e ao próximo!

quarta-feira, 28 de março de 2018

Como pedir uma graça por intercessão de Maria nas horas de desespero

A oração recomendada pelo Papa Francisco

Nos momentos de escuridão e desespero, o católico sabe que pode contar com a intercessão de sua Mãe, a Santíssima Virgem Maria, junto a Jesus. Esta é a oração que, nessas horas, o Papa Francisco nos recomenda:

Uma oração a Nossa Senhora Desatadora dos Nós


Santa Maria, cheia da presença de Deus,
durante os dias da vossa vida
aceitastes com toda a humildade
a vontade do Pai
e o maligno jamais pôde envolver-vos
com as suas confusões.
Junto ao vosso Filho
intercedestes pelas nossas dificuldades
e, com toda a singeleza e paciência,
nos destes o exemplo de como desenrolar
as linhas da nossa vida.
E, ao ficares para sempre como nossa Mãe,
pondes em ordem e tornais mais claros
os laços que nos unem ao Senhor.

Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa,
a Vós, que com vosso coração materno
desatais os nós que atrapalham nossa vida,
nós pedimos:
recebei em vossas mãos
………. (dizer o nome completo da pessoa
ou o nó a ser desatado)
e livrai-nos das amarras e confusões
com que o nosso inimigo nos castiga.

Pela vossa graça, pela vossa intercessão,
com o vosso exemplo,
livrai-nos de todo mal, Senhora Nossa,
e desatai os nós que nos impedem
de unir-nos a Deus,
para que, livres de toda confusão e erro,
nós O louvemos em todas as coisas,
coloquemos n’Ele o nosso coração
e possamos sempre servir a Ele em nossos irmãos.

Amém.